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4.8.08
·*· Como Nunca ·*·
Ela ficou feliz por saber e sentir que a vida não era como nos filmes; não era filme, nem livro, nem texto, nem parágrafo, nem palavras soltas ao acaso. Não ao acaso, mas ao vento. Eram palavras bem formadas, de letras presas uma a uma nas pontas de cada fio de cabelo, que se embaraçavam e embaralhavam e se desenvolviam a cada milímetro crescido, e se renovavam a cada corte.
Sentia tudo, tudo. E o nome dela não era um nome desses que escrevem nas carteiras de identidade de várias e várias pessoas. Era e não era, porque o que importava não era o nome propriamente dito. Não Cecília, não Dorotéia, não Ana, não Eloá, não Camila, não importa, não interessa. O valor estava nos sons, o nome era feito de sombra, de cheiros, da voz de quem chama o nome, qualquer que seja. Ela entendeu isso e ficou feliz, com raspas de tinta de parede sob as unhas.
Tentava entender a felicidade milagrosa e repentina. E por falar em milagre, tentou pensar em deus. Ela, que tentava se envolver o mínimo possível com religião, acabou concordando mais ainda consigo mesma: é importante acreditar em algo. E mais uma vez concordou, mais uma vez entendeu. Entendeu o que ela quis dizer durante todo esse tempo. Sempre sentiu que, os que não se enquadram em uma religião, vão para outra. E os que ficam deslocados em qualquer uma?
Criam a própria religião e idolatram o deus que convir. Aquele em quem acreditam. Ou pelo menos era assim que deveria ser. Pelo menos para ela. Acreditar é importante e, de repente, uma luz se acendeu, e era Deus. Com seus próprios olhos claros, amarelados por uma luz de poste, ela definitivamente boquiabriu-se ao ver Deus. Ao perceber que ele já estava por perto e só agora ela o reconhecia.
Não havia templos, igrejas, regras, pecados, fiéis e infiéis. Havia apenas ela, a luz e uma constatação pura e simples: O amor é um líquido que preenche lentamente aqueles espaços, brechas, rachaduras, que pareciam imensos abismos, de tão vazios. Agora plenos. Porque, para ela, que tanto tentava ignorar as pinturas de pára-choques de caminhão, deus não é amor. Mas o Deus dela é O amor, aquela névoa nacarada que flutua levemente sobre as pequenas coisas. É importante acreditar em algo.
04.08.08Marcadores: Mon Textes
AnaLoo -
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