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2.7.08
·*· Ecoar ·*·
Eloá era quietinha e carregava no semblante pálido umas olheiras bem grandes.
Era uma criança estranha, dessas que as outras crianças fazem questão de manter distância e jogam aqueles olhares furtivos. Simples e (in) justamente porque são estranhas. E ficava pelos cantos, quietinha, ouvindo, observando, sentindo. Se divertindo sozinha, aqueles cabelos escorridos e meio cinzentos, ondulando.
Observava as paredes de perto, e as formigas e rachaduras eram vacas à beira de abismos. O prego na parede poderia ser uma pessoa na neve. As pequenas coisas, todas as pequenas coisas. Poderia transformar uma flor num vestido de princesa e sabia perceber que o seu próprio nome tinha gosto de suco de abacaxi. Todas as pequenas sutilezas, tão suaves. Tão pequena.
De tanto observar, não entendia várias coisas, principalmente as pessoas. Não entendia os gritos, as brigas, a acidez das ironias, de tão pacata que era. Mas vejam bem, não confundam com lentidão. Eloá entendia bem tudo o que se passava, era bastante astuta. Só não conseguia era compreender o porquê de ser daquele jeito. Daquele modo tão áspero e tão desnecessário.
O tempo passava com Eloá pelos cantos, aprendendo a aceitar tudo aquilo exatamente como era. Tudo mesmo. E se a perguntassem o que tanto fazia ali, naquele canto de parede, a resposta seria sempre a mesma:
- Estou me digerindo.
02.07.08 Marcadores: Mon Textes
AnaLoo -
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