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3.6.08
·*· Aparências ·*·
Era pequena e criança, mas já grandinha suficiente para andar sozinha no ônibus, motivo para certo orgulho de si mesma. Queria ser moça o mais rápido possível, desejo comum entre as meninas de sua pouca idade, e foi com olhos grandes de admiração que Lucila viu passar pela roleta aquela mulher.
Tinha os lábios pintados de vermelho contrastando com os óculos de sol muito grandes e escuros. A blusa, os dois primeiros botões abertos, estava impecavelmente branca sobre a calça reta de risca de giz. Os brincos cintilavam e os saltos... Ah, os sapatos de salto... A menina transformou o chão metálico em altar ao ceder tanta admiração àquela pessoa já grande. Formulou em sua cabeça toda a vida e obra daquela mulher apenas no curto espaço de tempo decorrido entre a roleta e a última fileira de bancos, onde ela foi sentar-se.
"Deve ser uma moça que tem tudo o que quer e sabe o que quer", e mais algumas frases espocavam na mente da garotinha sentada na última fileira de bancos. Todas elas exaltavam o ar decidido e equilibrado da moça, doze centímetros acima de sua altura natural.
A última fileira de bancos. Lucila e a mulher estavam sentadas lado a lado. A pequena sentia-se intimidada com a seriedade daquela pasta cheia de papéis e a beleza escondida atrás da máscara e entranhada nos cabelos negros. Até nisso ela era melhor, com os cabelos mais negros do que os da menina. Mais brilhantes. Mais-qualquer-coisa-que-ela-quisesse.
Num pequeno deslize de sua perfeição, a grande deixou cair um envelope. A garotinha abaixou para pegá-lo e notou que estava manchado por gotas de água. Como aquelas que escorregaram por debaixo dos óculos grandes e escuros no momento em que a mulher murmurou um agradecimento tímido, tomando a carta entre as mãos com uma delicadeza trêmula logo em seguida.
Por um momento Lucila preferiu olhar através da janela para admirar os pássaros.
31.03.2006 Marcadores: Mon Textes
AnaLoo -
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